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Processos sociais


PROCESSOS SOCIAIS




LAKATOS, Eva Maria. MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. São Paulo: Atlas, 2006.
Texto indicado pela Professora Sueli – professora_sueli@yahoo.com.br

4.1 ISOLAMENTO E CONTATO

4.1.1 Tipos de Isolamento
O isolamento pode ser entendido como a falta de contato ou de comunicação entre grupos ou indivíduos. No mundo atual, praticamente não existe isolamento absoluto. Raros são os grupos humanos que não mantêm, mesmo que esporadicamente, contatos com outros grupos ou indivíduos; encontramos, isto sim, variações no grau de isolamento. Assim, ao nos referirmos a uma comunidade isolada, queremos significar que ela mantém contatos pouco freqüentes com outras comunidades. Por outro lado, o isolamento pode ser individual, isto é, do indivíduo dentro do seu grupo ou sociedade.
Park e Burgess indicaram quatro tipos de isolamento: espacial, estrutural, funcional e psíquico. Outros autores citam ainda o habitudinal.
Isolamento espacial ou físico. É a ausência de contatos ocasionada por fatores segregadores de caráter geofísico, ou seja, montanhas, vales, florestas, desertos, pântanos, rios, oceanos. Esses fatores e a distância entre as comunidades funcionam como isolantes, quando os meios de comunicação e os transportes de que dispõe a comunidade são rudimentares. E o nível tecnológico de uma comunidade que vai determinar sua capacidade de contornar esses fatores.
Através do Projeto Rondon, universitários brasileiros puderam comprovar o isolamento em que vive o homem na zona rural; em algumas localidades, isoladas pelo difícil acesso e pela falta de estradas, qualquer meio de locomoção que não fosse de tração animal era praticamente desconhecido.
Isolamento Físico, relativo ao indivíduo, pode ocorrer entre presos em solitária, ou, voluntariamente, no caso dos eremitas.
Isolamento estrutural. É constituído pelas diferenças biológicas tais como sexo, raça, idade. A sociedade atribui funções e atividades diversas a homens e mulheres e, em conseqüência, cria diferença de interesses. É praticamente geral, em todas as sociedades, esta diferenciação por sexo; entretanto, é condicionada pela cultura particular do grupo. Este aspecto cultural originará as diferenças entre as sociedades, como em países do Oriente Médio (muçulmanos), a segregação dos sexos era estritamente rígida e, nas raras ocasiões em que a mulher pudesse estar em presença de outros, que não seus familiares, deveria ter o rosto coberto por véu. Na Arábia Saudita, foi necessária uma atitude firme por parte do rei Faiçal para que a educação fosse extensiva ao sexo feminino. Mas o costume da separação de sexos determinou a criação de unidades especiais, inclusive nas universidades, onde as alunas, em salas separadas, acompanhavam a lição do professor através de um circuito interno de televisão. Na sociedade industrialmente desenvolvida, os movimentos feministas são extremados, que lutam pela igualdade da mulher, em todos os campos, principalmente o profissional, demonstram bem que, mesmo hoje, em nossa sociedade, existe essa diferença determinada pelo sexo.
O relativo isolamento de grupos étnicos pode ser observado nos guetos de judeus (afastamento obrigatório, no passado, em muitas sociedades); no Harlem negro, nos Estados Unidos (New York); na reunião dos japoneses no bairro da Liberdade, em São Paulo.
A idade também acarreta isolamento nas sociedades, em virtude de os grupos de idade serem, até certo ponto, segregados. Os movimentos da juventude de hoje, formando “colônias” próprias, é um bom exemplo desse tipo de isolamento. Ainda dentro do fator idade, vamos encontrar o isolamento dos velhos que se está transformando num problema da sociedade atual.
Isolamento funcional. Tem origem nos defeitos físicos — cegueira, surdez, mudez e outras limitações físicas. Essas deficiências impedem, muitas vezes, a comunicação, como no caso mais conhecido de Helien Keller, cujo processo de socialização só foi possível quando sua preceptora, extremamente dedicada, conseguiu vencer a barreira formada por sua deficiência física, que a isolava do mundo.
Os portadores de defeitos físicos, mesmo quando vencem a barreira da comunicação, têm sua participação limitada em muitas das atividades grupais.
Isolamento psíquico. Ocasionado por motivos baseados na própria personalidade, como interesses diferentes, gostos, temperamentos, pontos de vista, atitudes e sentimentos existentes entre indivíduos pertencentes a uma mesma cultura. Essas diferenças originam-se do fato de que, fazendo parte de grupos sociais diversos, a sua experiência, embora membros da mesma sociedade, seja diferente. E o isolamento que se verifica entre o cientista e o analfabeto, entre o homem do campo e o da cidade. Reforça o isolamento psíquico a pluralidade de grupos diferentes que coexistem na sociedade. Clubes, partidos políticos, seitas, sociedades secretas dão a seus participantes características e interesses diversos. Mesmo o sistema de classes contribui para o isolamento psíquico, já que caracteristicamente cada classe social tem determinado tipo de ocupação, modo de vida e interesses particulares.
Isolamento habitudinal. Diz respeito à separação ocasionada pela diferença de hábitos, costumes, usos, linguagem, religião e outros fatores. O primeiro e mais óbvio exemplo é o daqueles que não falam a mesma língua, cuja comunicação só poderá ser feita através de gestos. Mas essa diferença de linguagem não é a única entre eles. Diferentes povos, em virtude de sua cultura característica, criam diferenças de hábitos e até de perspectivas em relação ao mundo. Torna-se difícil compreender os valores de um povo que pratica o canibalismo, o infanticídio ou a eliminação de pessoas idosas — gerontocídio. Muitos hábitos de higiene corporal e de alimentação causam espanto, às vezes até repugnância. Os esquimós, por exemplo, comem carne deteriorada e o conteúdo semidigerido do estômago do caribu.
O etnocentrismo concorre para o isolamento, pois é uma atitude de supervalorização das características de “nosso grupo” e de menosprezo por tudo o que é do “grupo alheio”. Antigamente, o fanatismo religioso levava a uma total impossibilidade de comunicação entre elementos de credos diversos. Há sobrevivência deste fato na India. Hoje, a tolerância religiosa permite, no Ocidente, uma possibilidade de diálogo, principalmente depois da atividade ecumênica do Papa João XXIII.
Conseqüências do isolamento no indivíduo e no grupo. Em relação ao indivíduo, é importante salientar a época em que ocorre o isolamento, em virtude de seus efeitos serem diferentes: antes de ser socializado, isto é, nos primeiros anos de vida, se a criança for afastada inteiramente do convívio de outros seres humanos, tornar-se-á o chamado Homo ferus. Poucos são os casos devidamente estudados por cientistas sobre crianças que foram encontradas vivendo isoladas ou em companhia de animais. De todos os casos relatados, o mais famoso é o das “meninas-lobo” da Índia. Quando encontradas, apresentavam características de animais: andavam sobre os quatro membros, soltavam grunhidos e tinham apurada visão noturna.
Se o afastamento for pronunciado, mas não total, temos uma mentalidade retardada. Kingsley Davis cita o caso de duas meninas ilegítimas que, até a idade de mais ou menos seis anos, permaneceram trancafiadas em um quarto. Ana permaneceu sozinha e somente suas necessidades biológicas de sobrevivência foram satisfeitas; Isabel foi mantida em reclusão juntamente com a mãe, surda-muda. Ambas as crianças, ao serem descobertas, apresentavam mentalidade retardada. Ana assemelhava-se a um bebê: imóvel e indiferente a tudo; Isabel procedia quase como um animal selvagem, manifestando receio e hostilidade. Nenhuma das duas falava. Após um processo de socialização, apresentaram progressos notáveis, mas, infelizmente, faleceram em poucos anos.
Depois que o indivíduo estiver socializado, o isolamento prolongado provocará a diminuição das funções mentais, podendo chegar à loucura. Foram constatados tais casos entre prisioneiros e também entre eremitas.
Quanto ao grupo, o isolamento produz costumes sedimentados, cristalizados, que praticamente não se alteram, porque a estrutura da sociedade é altamente integrada, e as atividades dos indivíduos padronizadas. Há um máximo de estabilidade e acomodação pessoal, reduzindo-se ao mínimo a desorganização pessoal e a possibilidade de mudança social. Exemplos: habitantes de uma área rural de Quebec, Canadá, que falam francês arcaico e mantêm inalterados seus costumes desde sua imigração; povo que vive nas montanhas do sul dos Estados Unidos, oriundo da Inglaterra e Escócia, que conserva intacta sua cultura original de mais de 200 anos.

4.1.2 Tipos de Contato
Ao nos referirmos às relações sociais, devemos compreendê-las em seus aspectos dinâmicos. Os indivíduos, através das relações sociais, podem aproximar-se ou afastar-se, dando origem a formas de associação ou dissociação. A este aspecto dinâmico damos o nome de processo social.
No processo social, podemos ver um aspecto primário, fundamental, que é ocontato social. Esta denominação de primário ou fundamental deriva do fato de que dependerão do contato todos os outros processos ou relações sociais. Podemos dizer que o contato é a fase inicial da interestimulação, e que as modificações resultantes são denominadas de interação. E importante fazer uma distinção, no que se refere aos contatos, entre os meios físicos e o significado, isto é, a transmissão de ideias, valores e atitudes. Os meios físicos são apenas os instrumentos: o aperto de mão, o sinal de cabeça, o assobio, o piscar de olhos (meios físicos, porque fundamentados em percepções sensitivas, através dos sentidos da visão, olfato, audição e tato) significam algo, pois são atribuídos significados específicos, convencionais, a esses elementos. Verificamos que o importante no contato social não é apenas o estímulo-reação, mas a interpretação, o aspecto social do contato que está baseado na comunicação de significados. Vejamos como podem ser os contatos.
Contatos diretos. Ocorrem por meio da percepção física; portanto, realizados face a face, e contatos indiretos, realizados através de intermediários ou de meios técnicos de comunicação: telefone, carta, telegrama, rádio, telex, periódicos, livros e outros. Exemplo: contato direto: o médico atendendo pessoalmente seu paciente; o técnico dando instruções aos jogadores; o professor ministrando aula a seus alunos. Indireto: qualquer acontecimento, hoje, é imediatamente conhecido em quase todos os países do mundo, através de ligações telefônicas, radiofônicas, de telex, inclusive com o uso de satélites. Desta maneira, informantes e informados estão em contínuo contato indireto.
Contatos voluntários. São contatos sociais derivados da vontade própria dos participantes, de maneira espontânea, sem coação. Opõem-se aos contatos involuntários, que derivam da imposição de uma das partes sobre a outra. Exemplo: contatos entre guardas e prisioneiros.
Contatos com o passado. Têm por finalidade a transmissão da herança social através do estudo histórico ou do intercâmbio com gerações vivas, mas velhas, e contato com o presente, cuja finalidade é acolher idéias ou atitudes de outros grupos, dando origem a um processo de mobilidade e mudança. É de importância fundamental.
Contatos primários (Cooley). São pessoais, íntimos e espontâneos, em que os indivíduos tendem a compartilhar de suas experiências particulares; envolvem elemento emocional, permitindo certa fusão de individualidade que dão origem aos “nós”. O contato é completo, considerado como um fim em si mesmo. Exemplos: família, grupos de amizade e de vizinhança. Contatos secundários. Formais, impessoais, racionais e calculados, geralmente superficiais, envolvendo apenas uma faceta da personalidade. Exemplos: aeromoça e passageiros de um avião; comprador e vendedor de um grande magazine.
Contatos de “nosso grupo” (Summer). Fundamentados no fenômeno do etnocentrismo, com a supervalorização da cultura e dos costumes. Há uma tendência para a identificação com os membros do grupo, mantendo relações baseadas em simpatia, sentimento de lealdade, amizade e até mesmo altruísmo. Os membros do grupo são conscientes de suas semelhanças. O “grupo alheio” é constituído por estranhos, cuja cultura e costumes são menosprezados. Considerados estranhos, forasteiros, adversários ou inimigos, os sentimentos que eles despertam são de indiferença ou inimizade.
Os conflitos armados, ao mesmo tempo que acentuam a diferença entre os grupos em choque, servem também para exacerbar o etnocentrismo. O bairrismo, o regionalismo e o nacionalismo fanáticos são também formas de etnocentrismo.
Nas sociedades em geral, as religiões e as ideologias têm certas características universais, numa tentativa de fazer com que o código do “nosso grupo” seja universal. Exemplos: na religião cristã, temos o preceito “amai-vos uns aos outros”, isto é, amar até aos próprios inimigos. Certas ideologias, por sua vez, também tendem a se tornar universais, independentemente de grupos, sociedades, Estados ou nações, mas referentes a determinada classe social: “trabalhadores de todo mundo, uni-vos”.
Contatos categóricos (Shaler). Resultam da classificação que fazemos de uma pessoa desconhecida, baseada em sua aparência física, cor da pele, feições, profissão etc., de acordo com as características atribuídas a ela pelo “nosso grupo”. Essa espécie de classificação facilita nossos contatos com estranhos, pois permite que assumamos atitudes, em relação a eles, em função de determinada categoria. Exemplos: ao nos ser apresentado um indivíduo, como advogado, passamos a adotar a atitude que, em geral, se tem para com esse tipo de profissional. Ao vermos um elemento maltrapilho, nossa atitude, em relação a ele, será diferente daquela que teríamos em relação a um bem vestido. O uniforme e as indumentárias específicas revelam-nos a profissão de um indivíduo, mas nada nos dizem sobre suas qualidades pessoais. Contatos simpatéticos são contatos baseados em qualidades manifestadas pelos indivíduos e não em características de categorias. Os contatos categóricos podem vir a se transformar em simpatéticos. Geralmente, isso ocorre entre professor e aluno, chefes e colaboradores diretos.
Os vários tipos de contato não são mutuamente exclusivos — todos os contatos primários são simpatéticos, mas nem todos os contatos simpatéticos são primários.
No mundo moderno, nas sociedades complexas, há um número maior de contatos secundários e categóricos, e os contatos tendem a tornar-se cada vez mais superficiais e passageiros.

4.2  INTERAÇÃO SOCIAL – COMUNICAÇÃO

4.2.1 Conceito de Interação
Interação social é a ação social, mutuamente orientada, de dois ou mais indivíduosem contato. Distingue-se da mera interestimulação em virtude de envolver significados e expectativas em relação às ações de outras pessoas. Podemos dizer que a interação é a reciprocidade de ações sociais.

4.2.2 Formas de Comunicação
A comunicação, forma importante de interação, é fundamental para o homem, enquanto ser social, e para a cultura. Ela pode dar-se através de:
a. meios não vocais, como expressões, traços fisionômicos etc. Determinadas expressões de alegria, tristeza, desagrado ou raiva, movimentos de olhos, trejeitos da boca e suspiros, o ruborizar-se, empalidecer, chorar ou rir, expressões corporais como a postura e movimentos de mãos e ombros etc. condicionam respostas que são baseadas em seus significados, interpretados através de experiências anteriores;
b. sons inarticulados, baseados em emoções e inflexões de voz. Determinados sons, mesmo que não se articulem em palavras, são por nós interpretados ainda com base em experiências pessoais; as inflexões de voz são importantes, pois, muitas vezes, reagimos não às palavras, mas à maneira como são ditas;
c. palavras e símbolos. Entre todos os animais, somente o homem desenvolveu a capacidade de linguagem, isto é, a atribuição de significados a fonemas, a um conjunto de sons articulados. A interação através da linguagem também é condicionada pela cultura: em primeiro lugar, as sociedades desenvolveram linguagem diferentes; em segundo lugar, uma mesma linguagem, em dada sociedade, apresenta variações, quer seja pelos “regionalismos”, quer pela própria diversidade e riqueza, com várias palavras para exprimir o mesmo sentimento ou emoção, ou significados diversos para uma mesma palavra. Assim, podemos dizer que, em dada sociedade, se os indivíduos que se comunicam pertencem a diferentes subculturas, é possível que o significado de suas palavras não seja o mesmo para um e outro. Determinadas categorias profissionais, grupos etários e regiões geográficas têm significados específicos para grande parte dos vocábulos de uma linguagem comum. Os símbolos, por sua forma e natureza, evocam, perpetuam ou substituem, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente. Exemplos cruz, bandeira, escudos etc
A medida que as sociedades se desenvolvem e se tornam complexas, apresentam condições para o aparecimento e aperfeiçoamento de meios técnicos de comunicação: imprensa, rádio, telégrafo, televisão, satélites.

4.3 COOPERAÇÃO - COMPETIÇÃO – CONFLITO

4.31. Tipos de Cooperação
A cooperação é o tipo particular de processo social em que dois ou mais indivíduos ou grupos atuam em conjunto para a consecução de um objetivo comum. É requisito especial e indispensável para a manutenção e continuidade dos grupos e sociedades.
A cooperação pode ser:
a. temporária: os indivíduos reúnem-se para a execução de uma tarefa durante um período determinado. Exemplos: fazer uma lição em conjunto, mutirão. Contínua. Quando ocorre entre indivíduos ou grupo que, fixados em determinado local, necessitam sempre da colaboração uns dos outros. Exemplo: controle da poluição;
b. direta: os indivíduos ou grupos realizam, em conjunto, coisas semelhantes. Divide-se em: trabalho associado — amigas fazendo compras juntas em supermercado;trabalho suplementar — mutirão; integração de trabalhos diversos — cuja característica principal é que os trabalhos diferentes visam à consecução de objetivos comuns. Exemplo: construção de uma residência, havendo a necessidade do trabalho de diferentes especialistas. Indireta. E a realização de trabalhos diferentes. A cooperação surge, inevitavelmente, pelo fato de que nenhum indivíduo é auto-suficiente, tendo de especializar-se em determinado ramo. Podemos citar como exemplo um engenheiro que necessita da colaboração do médico, do agricultor, do industrial etc.
São numerosos e complexos os interesses que levam os indivíduos e os grupos à cooperação. Pode ser a obtenção de algum bem material, interesses pessoais ou grupais, lealdade ao grupo e seus ideais, temor às pressões ou ataques de outros grupos, ou a própria necessidade estrutural, decorrente da mútua interdependência em virtude das funções especializadas. Resumindo, podemos dizer que a cooperação é a solidariedade social em ação.

4.3.2 Tipos de Competição
Em todas as sociedades existem diferenças de capacidades e de desejos entre seus componentes. Para a satisfação de suas necessidades e aspirações, os indivíduos (e também os grupos menores, integrantes do grupo total) competem entre si, com maior ou menor energia. Essa porfia pode ser considerada universal, conquanto inúmeras vezes os próprios indivíduos dela não se apercebam. Isso leva alguns sociólogos a afirmar que a competição é a “forma mais elementar e universal de interação”, consistindo em “luta incessante por coisas concretas”. Alguns acrescentam, ainda, que se trata de uma contenda “contínua” (o que é certo), “inconsciente” e “impessoal”.
Para Hamilton, existe competição quando os recursos de uma sociedade (alimentação, bens materiais, posições sociais, poder etc.) são inflexíveis e inadequados perante uma população portadora de desejos insaciáveis.
Como exemplo de competição, assim entendida, podem ser citados os esforços visando adquirir êxito nos estudos, na vida econômica, em relação à posição social, na capacidade profissional, artística, intelectual e mesmo esportiva. Todas as formas de empenho em progredir e obter uma situação satisfatória, seja quanto ao bem-estar próprio, seja quanto à opinião dos outros, não visam, na maior parte das vezes, suplantar esta ou aquela pessoa. Elas se exercem, principalmente, com a finalidade de assegurar a consideração alheia ou de conquistar aquilo que o indivíduo considera “melhores condições de vida”. De semelhante dispêndio de energia pode, geralmente, estar ausente a preocupação de tirar algo de alguém ou de impedir que alguém atinja determinadas metas. Admitimos que tais competições possam obedecer a motivos subconscientes e mesmo que, às vezes, sejam conscientemente despendidas energias para alcançar melhores posições. Entretanto, temos reservas em relação à asserção de que a competição é necessariamente “inconsciente e impessoal”. Os indivíduos que competem, na maior parte das vezes, podem ignorar por que, no fundo, estão competindo, mas geralmente têm uma noção do que almejam. Quanto à “impessoalidade”, esta é muito relativa.
Muitos autores reconhecem existir, com freqüência entre os competidores, uma rivalidade definida. O aluno que luta pelo primeiro lugar quer suplantar colegas seus perfeitamente conhecidos. O mesmo se dá com o desafiante que pretende tomar o lugar do campeão, ou com o negociante ansioso por ostentar maior riqueza que um concorrente. Em política, ou na luta por colocações e postos administrativos, não é nada fácil delimitar onde acaba a competição e onde começa o conflito. Estas observações justificam a seguinte tese: entre a natureza da competição e a do conflito há apenas uma diferença essencial — a primeira não é necessariamente pessoal e não implica necessariamente hostilidade, como acontece ao conflito.

4.3.3 Formas de Conflito
Verificamos que competição consiste em esforços de indivíduos ou grupos para obter melhores condições de vida. Quando uma pessoa se interpõe no caminho da satisfação ou dos desejos da outra, surgem os choques, no sentido de uma das partes eliminar os obstáculos levantados pela outra. A luta, então, torna-se pessoal. Cada um dos contendores tem a consciência de que, para alcançar os próprios propósitos, precisa fazer com que o outro não atinja os seus. Aí surge a hostilidade, que comumente reforça a energia necessária aos esforços de suplantação. A esse tipo de luta, consciente e pessoal, dá-se o nome de conflito. A conceituação mais aceita de conflito é, pois, uma contenda entre indivíduos ou grupos, em que cada qual dos contendores almeja uma solução que exclui a desejada pelo adversário.
O conflito pode apresentar-se de diversas maneiras:
a. rivalidade, que compreende ciúme e antagonismo. Exemplo: duas moças que querem conquistar o mesmo rapaz;
b. debate, controvérsia a respeito de pontos de vista, idéias ou crenças diferentes, entre indivíduos ou grupos. Exemplo: debate em torno da reforma fiscal;
c. discussão, forma de debate mais acalorada, com troca de palavras ásperas. Exemplo: altercação entre torcedores exaltados de diferentes times de futebol;
d. litígio, demanda judicial entre partes contrárias. Exemplo: disputa entre firmas por um “símbolo” da “marca”;
e. contenda, briga entre indivíduos ou grupos. Exemplo: entre gangs juvenis;
f. guerras, luta com armas entre nações ou partidos. Exemplos: Revolução Francesa; Guerra Civil Espanhola; Segunda Guerra Mundial.
De acordo com o nosso ponto de vista, deve-se atribuir às competições e aos conflitos as seguintes conseqüências, de decisiva importância para a vida social:
a. divisão do trabalho;
b. desenvolvimento de uma ordem econômica;
c. distribuição das instituições no espaço social;
d. efetivação de uma configuração espacial das populações;
e. estabilidade ou modificações da própria ordem política;
f. mudanças que se operam nas relações e na importância relativa de grupos distintos (ou classes), integrantes da sociedade.

4.4 ADAPTAÇÃO - ACOMODAÇÃO – ASSIMILAÇÃO

4.4.1 Níveis de Adaptação
A adaptação do indivíduo ao meio Social realiza-se principalmente em três níveis:
a. biológico e psicomotor: o indivíduo desenvolve determinadas necessidades fisiológicas, gostos e atitudes corporais através do conhecimento de seu organismo neurofisiológico, e de seu aparelho sensitivo-motor. Podemos distinguir um brasileiro de um argentino ou italiano com base em determinados hábitos alimentares, gestos e atitudes, ou modos de comportamento, que os caracterizam. O corpo e os gostos dos indivíduos sofrem uma socialização que tende a adaptá-los a determinado ambiente sociocultural;
b. nível efetivo: em que podemos verificar, por exemplo, a modificação quanto aos Sentimentos entre pessoas que se casam: hoje, incentiva-se o namoro e o desabrochar do amor entre os jovens, para servir de base ao casamento, contrapondo-se à conveniência ou aos interesses entre as respectivas famílias;
c. nível de pensamento: quando as faculdades intelectuais se desenvolvem através da incorporação dos elementos da cultura. O indivíduo adapta-se a determinadas representações de imagens, categorias mentais e conhecimentos, estereótipos e maneiras de pensar de seu grupo.
A adaptação social de um indivíduo ao grupo não significa necessariamente conformidade social, mas supõe a utilização de certa margem de liberdade ou de autonomia que o meio concede. Essa liberdade ou autonomia varia de sociedade para sociedade, exigindo algumas delas uma conformidade mais completa e estrita do que outras. Mas é evidente que, para a sobrevivência da coletividade, deve existir um denominador comum entre os componentes e certo grau de adesão e conformidade às normas estabelecidas.

4.4.2 Formas de Acomodação
Acomodação é um processo social com o objetivo de diminuir o conflito entre indivíduos ou grupos, reduzindo-o e encontrando um novo modus vivendi. E um ajustamento formal e externo, aparecendo apenas nos aspectos externos do comportamento, sendo pequena ou nula a mudança interna, relativa a valores, atitudes e significados. O modus vivendi é uma espécie de arranjo temporário, que possibilita a convivência entre elementos e grupos antagônicos e a restauração do equilíbrio afetado pelo conflito. O antagonismo é temporariamente regulado e desaparece como ação manifesta, embora possa permanecer latente. A acomodação pode ser muito duradoura e aparentemente permanente, como no caso das castas, ou então transitória, como a existente entre as classes, numa sociedade aberta. Essa forma de processo social, decorrente do conflito, resulta em mudança de status de indivíduos ou grupos e/ou numa nova ordem social.
A acomodação pode assumir diversas formas:
a. coerção: através da ameaça ou do uso da força, quando as partes envolvidas têm poderes desiguais; o mais forte domina a parte mais fraca. Exemplo: armistício após a guerra. A subordinação aparece em caso de rendição incondicional, em caso de vitória de uma das partes envolvidas na guerra. A escravidão é também uma forma de acomodação por coerção.
b. compromisso: as partes, em luta, possuem igual poder e chegam à acomodação através de concessões mútuas. Este tipo de acomodação é comum nas disputas parlamentares, lutas econômicas e diplomacia. Nesta última é também muito empregada a arbitragem;
c. arbitragem: nesse caso, a acomodação é obtida por meio da atuação de um terceiro, que funciona como árbitro ou mediador. No Brasil,
ocorre muitas vezes em disputas trabalhistas;
d. tolerância: constitui o grau mínimo de acomodação, pois não significa necessariamente a solução das divergências, mas uma maneira de impedir o conflito manifesto. Exemplo: a détente entre países com ideologias opostas, visando a uma cooperação e a uma convivência para não chegar ao estado de beligerância. Na realidade, as divergências originadas por ideologias e concepções religiosas diferentes, ou quando interesses vitais estão em jogo, não podem ser resolvidas, pois são inconciliáveis e não fazem concessões. A única possibilidade de evitar a coerção reside na tolerância, como ocorre com os grupos religiosos dentro de alguns países;
e. conciliação: forma consciente de acomodação; envolve mudança de sentimento com a diminuição da hostilidade; há harmonização entre os antagonistas. Exemplo: o respeito mútuo e a amizade que se podem desenvolver entre cientistas que elaboraram e defendem teorias opostas sobre o mesmo assunto.

4.4.3 Assimilação
Assimilação é o processo social em virtude do qual indivíduos e grupos diferentes aceitam e adquirem padrões comportamentais, tradição, sentimentos e atitudes da outra parte. É um indício da integração sociocultural e ocorre principalmente nas populações que reúnem grupos diferentes. Os indivíduos assimilam-se entre si, partilham sua experiência e sua história, e participam de uma vida cultural comum.
São vários os fatores que influenciam o processo de assimilação:
a. contatos primários: o processo da assimilação ocorre naturalmente quando é possível contatos primários, como, por exemplo, nos grupos de amizade. Quando os contatos são indiretos e superficiais, isto é, secundários, é mais provável a acomodação do que propriamente a assimilação;
b. linguagem: uma linguagem comum ou bastante semelhante colabora na rapidez da assimilação, já que é importante para manter contatos primários, e também para a comunicação. E através desta que as atitudes, valores e sentimentos podem ser compartilhados e assimilados;
c. ausência de caracteres físicos distintivos: a assimilação é facilitada, quando os indivíduos se assemelham fisicamente entre si, sem qualquer característica física que os aponte imediatamente como pertencentes ao “grupo alheio”;
d. número e concentração de indivíduos: quando imigrantes se estabelecem em grande número, em determinada região, sua assimilação é mais difícil em virtude de que, no convívio entre si, mantêm vivos sua língua, tradições e padrões culturais. Ao contrário, quando se estabelecem em número reduzido, a convivência com o grupo local torna-se maior, facilitando o processo de assimilação;
e. prestígio da cultura: à medida que imigrantes se estabelecem em determinado país, cuja cultura tem prestígio, isto é, em que desejam ser considerados como membros efetivos do novo grupo ou da nova sociedade, sua assimilação é mais rápida. Tal se verifica principalmente em países onde os imigrantes além de não serem hostilizados, logo adquirem um sentimento de segurança e dispõem de facilidades para o trabalho e a vida em geral.



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