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Sociedade, educação e vida moral


Sociedade, educação e vida moral

O homem faz a sociedade ou a sociedade faz o homem?

Num de seus sambas, Paulinho da Viola narra a trajetória de um malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a toda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas “o sistema” não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginalidade. O último verso diz tudo: “a culpa é da sociedade que o transformou”. Já em outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marcada, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o “sistema” nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho da nossa liberdade?
Data dos primeiros esforços dos fundadores da sociologia como disciplina com pretensões científicas a dificuldade em lidar com essa tensão existente entre, de um lado, a possibilidade de ver a sociedade como uma estrutura com poder de coerção e de determinação sobre as ações individuais e, de outro, a de ver o indivíduo como agente criador e transformador da vida coletiva.
Diante da necessidade de demarcar um espaço próprio dentro do campo científico para esta nova disciplina acadêmica, alguns se empenharam em demonstrar a existência plena de uma vida coletiva com alma própria, acima e fora das mentes dos indivíduos. Buscavam com isso delimitar um campo de investigação que estivesse fora da alçada da psicologia (que já lidava com a mente do indivíduo) ou de outra ciência humana qualquer. Outros pensaram em tratar a ação individual como o ponto de partida para o entendimento da realidade social e, embora também fugissem do “psicologismo”, colocaram a ênfase não no peso da coletividade sobre os homens, mas na capacidade dos homens de forjar a sociedade a partir de suas relações uns com os outros.
É provável que todos tivessem razão. Os homens criam o mundo social em que vivem — de onde mais ele viria? — e ao mesmo tempo esse mundo criado sobrevive ao tempo de vida de cada indivíduo, influenciando os modos de vida das gerações seguintes. Como pensar a história humana sem resgatar a biografia dos homens? Como escrever uma biografia sem considerar a sociedade e o momento histórico em que o biografado viveu? Portanto, a sociedade faz o homem na mesma medida em que o homem faz a sociedade. Preferir uma parte do problema em detrimento da outra é apenas uma questão de ênfase.
No entanto, essa ênfase é importante quando consideramos a concepção que cada um dos principais autores da sociologia tinha sobre a educação. Ou, pelo menos, a concepção de educação que podemos deduzir de seus escritos sociológicos.

Durkheim e o pensamento sociológico

Educar é conservar? Ou revolucionar? Educar é tirar a venda dos olhos ou impedir que o excesso de luz nos deixe cegos? Educar é preparar para a vida? Se for assim, para qual vida?
Com a palavra, esses inquietos senhores, os formuladores da teoria sociológica. E comecemos logo por aquele que foi e continua sendo um dos mais influentes pensadores da sociologia e da sociologia da educação.
Fortemente influenciado pelo cientificismo do século XIX, principalmente pela biologia, e extremamente preocupado com uma delimitação clara do objeto e do método da sociologia, o francês Emile Durkheim (1858-1917) vislumbrou em sua obra a existência de um “reino social”, que seria distinto do mineral e do vegetal.
Não por coincidência, ele chamava este reino social, às vezes, de “reino moral”. O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os “fenômenos morais”, e seria composto por ambientes constituídos pelas “ideias” ou pelos “ideais” coletivos. Toda vida social se dá, para Durkheim, nesse “meio moral”, que está para as consciências individuais assim como os meios físicos estão para os organismos vivos.
Entender que esta dimensão de fato exista, que tal meio coletivo seja real e determinante na vida das pessoas, não é algo evidente por si mesmo, e não é tarefa para qualquer um, achava Durkheim. O sociólogo é o único cientista preparado para detectar esses estados coletivos. Para tanto, ele deveria enfrentar sua aventura intelectual com a mesma postura dos demais cientistas, colocando-se num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos ou biólogos em seus laboratórios. Se a lei da gravidade ou a da inércia são leis da natureza — não se pode questioná-las, não se pode mudá-las, e só nos resta conhecê-las para melhor viver —, do mesmo modo a sociedade, a vida coletiva, deve ter suas leis próprias, independentes da vontade humana, que precisam ser conhecidas. A física newtoniana descobriu as leis da gravidade e da inércia dos corpos. Cabe à sociologia, na visão de Durkheim, descobrir as leis da vida social.
Sua pretensão é apresentar a sociologia como uma ciência positiva, como um estudo metódico. Seguindo os métodos certos, portanto, o sociólogo poderá descobrir as leis sociais. Durkheim compreendia “lei” (lei científica, neste caso) como uma “relação necessária”, como a descoberta da lógica inscrita no próprio real e apresentada na forma de um enunciado pelo cientista. Esse positivismo é, para ele, a única posição cognitiva possível. Na explicação que ele proporciona, o “fator social” é sempre o determinante. Em tal universo intelectual, a verdadeira Ciência só aparece quando ocorre a perfeita separação entre teoria e prática. O meio moral que serve de entorno aos indivíduos deve ser tomado como um dado bruto à observação do investigador, que não deve em momento algum assumir os valores nele contidos. Durkheim escreve que os principais fenômenos sociais, como a religião, a moral, o direito, a economia ou a educação, são na verdade sistemas de valores. Se estivermos contaminados com os valores que esses fenômenos expressam, não teremos a isenção necessária para entendê-los.
A sociologia, enuncia Durkheim, é o estudo dos fatos sociais. E fatos sociais são justamente aqueles modos de agir que exercem sobre o indivíduo uma coerção exterior e que apresentam uma existência própria, independente das manifestações individuais que possam ter. Os fatos sociais, em suma, devem ser considerados como coisas. Durkheim nota que na vida cotidiana temos uma ideia vaga e confusa dos fatos sociais — como o Estado, a liberdade, ou o que quer que seja — justamente porque sendo eles uma realidade vivida, temos a ilusão de conhecê-los. O senso comum, as maneiras habituais de pensar são, portanto, contrárias ao estudo científico dos fenômenos sociais. À maneira da lógica cartesiana, ele acha necessário desconfiar sempre das primeiras impressões. Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas, para livrar-se das pré-noções, dos preconceitos não científicos. Para conhecê-los cientificamente o fundamental é estarmos convencidos de que eles não são inteligíveis imediatamente.
Mas cuidado aí com as palavras, caro leitor. Veja lá que conclusões vai tirar delas. Durkheim não afirmou que os fatos sociais são de fato coisas materiais, mas apenas que devem ser tratados como se fossem coisas tais como as coisas materiais. “Coisa” para ele é todo objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato, necessitando o auxílio da ciência. Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental.
Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais, como o demonstram a moda, o casamento, as correntes de opinião. Um crime, por exemplo, é reconhecido como tal porque é de conhecimento coletivo que todo crime suscita uma sanção, que deve ser punido pelas regras que a sociedade estabelece (no caso, pelas leis jurídicas). A lei estabelece punição porque o crime fere a consciência coletiva, contradiz as convicções mais vivas e profundamente compartilhadas. No entanto, o crime não é uma aberração. Se existem regras sociais que prevêem o que será e o que não será crime é porque o crime é algo normal. O crime, portanto, é um fato social, assim como a lei que prevê sua punição. São fatos sociais não só porque são normais, mas porque são percebidos como fatos sociais pelos membros da sociedade; e porque exercem alguma pressão sobre os indivíduos, alguma coerção, alguma obrigatoriedade.
Ou seja, o recado de Durkheim, com essa conversa toda sobre como definir corretamente os fatos sociais, é que não adianta simplesmente dizer que o homem é um ser inserido na sociedade, cercado de fatos sociais por todos os lados. Isso não diria nada. A coisa é mais complicada. O recado é o seguinte: a sociedade está na cabeça dos homens e das mulheres, de todos e de cada um. Pois só existe um modo de conhecer os fatos que estão à nossa volta, sejam eles pedras, paus, casas, aviões, emoções, leis, delitos, pneus, roupas, peças de teatro, religiões ou sei lá o quê. É criando em nossa mente uma ideia do que sejam ou um ideal que diga respeito ao modo como deveriam ser. Em outras palavras, é gerando uma representação mental, uma espécie de chave interpretativa que construímos para lidar com aquilo que a princípio não conhecemos.

A sociedade na cabeça de cada um

E é aí que a sociologia de Durkheim tem graça. Para ele, as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). As representações sobre os fatos sociais são representações coletivas, são percebidas em coletivo. É como se houvesse dois de nós dentro de nós mesmos: um ser individual, em cuja cabeça existem estados mentais referentes apenas a nossa pessoa, a nossa vida como indivíduos, e, ao mesmo tempo, um ser social. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais, mas um conjunto de crenças, de hábitos, de valores, os quais não revelam coisas que “pensamos com nossa própria cabeça” (se é que tal coisa poderia existir, na visão de Durkheim). Tais crenças e valores não revelam uma suposta personalidade privada. Revelam, sim, o quanto há dos outros em nós. De todos os outros! Das pessoas que vivem conosco na sociedade em que vivemos e das pessoas que nem conhecemos, e inclusive das que não vivem mais, que já morreram, talvez há muitos anos. A sociedade vive na cabeça de cada um e, assim como o Cristo bíblico, onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome ela estará no meio deles. Mais do que isso até, pois se destacarmos um único indivíduo da sociedade onde ele vive e o levarmos para outra sociedade ou mesmo para uma ilha deserta, ele levará um pouco da sociedade consigo, dentro de sua cabeça. Lembram-se do modo como Robison Crusoé sobreviveu após o naufrágio? Pois é, foi graças à sociedade e seus saberes, que viviam dentro de sua cabeça, apesar da ausência física das demais pessoas. Portanto, não apenas o indivíduo faz parte da sociedade; uma parte da sociedade faz parte dele. Ao mesmo tempo, por outro lado, a sociedade só existe em sua plenitude se tomarmos o conjunto, porque ela não cabe toda, completa, na cabeça de cada um.
As representações coletivas, assim, são exteriores às consciências individuais; elas não derivam dos indivíduos considerados isoladamente, mas de sua cooperação. Na construção do resultado comum dessa colaboração, diz Durkheim, cada um entra com sua quota-parte; mas os sentimentos privados só se tornam sociais quando se combinam entre si, são compartilhados e geram, em decorrência, algo novo. Por causa das combinações e das mutações que sofrem ao se combinarem, os sentimentos individuais se transformam em outra coisa. E como uma síntese química. O hidrogênio e o oxigênio são dois gases diferentes, mas se combinados em certa proporção determinada e sob certas condições físicas específicas, transformam-se em algo completamente diferente: água. Se tomarmos as partes que compõem a água, não entenderemos a água jamais, pois que suas partes constitutivas são gases. Do mesmo modo, se tomarmos os indivíduos, não entenderemos a sociedade jamais, pois se é verdade que ela existe em cada um, em cada um só existe um fragmento dela. O todo, para Durkheim, tem precedência sobre as partes. A sociedade tem vontade própria. Ela pensa, sente, deseja, embora não possa pensar, sentir, desejar e principalmente agir senão através dos indivíduos. A consciência coletiva existe através das consciências particulares. Cada uma não é nada sem a outra.
Talvez a esta altura, caro leitor, você já esteja um pouco ansioso. Talvez já esteja se perguntando: bem, mas o que tem tudo isso a ver com educação? Em que Durkheim nos ajuda, afinal, a pensar a educação?
Calma, calma. Vamos chegar lá agora.
Disso que acabei de dizer, retenha dois raciocínios fundamentais. Primeiro, a consciência coletiva, esta sociedade viva na cabeça de cada indivíduo e ao mesmo tempo exterior a cada pessoa e que a obriga a comportar-se conforme o desejo da sociedade, não existe individualmente, mas somente pela cooperação entre os indivíduos. Segundo, essa existência social, essa vida coletiva, é obra não apenas dos indivíduos que cooperam entre si num dado momento da vida da sociedade, mas também das gerações passadas, que ajudaram a criar as crenças, os valores e as regras que ainda hoje estão presentes e que nos obrigam de certo modo a nos comportarmos de acordo com “a vontade da sociedade”.

A diferenciação da sociedade

Ora, se agimos segundo a vontade da sociedade, é porque assim aprendemos. Porque fomos educados para isso. Essa educação, naturalmente, não se faz no vácuo. Ela tem conteúdos. Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos, quer dizer, por este mar de crenças, valores e regras produzidos pelas gerações de indivíduos passadas e presentes da sociedade em que vivemos. Existe um número quase infinito de regras sociais que, de tão comuns, até esquecemos que existem, mas das quais imediatamente nos lembramos se colocados diante de uma situação que as exija: é proibido matar seres humanos, é proibido fazer sexo com o irmãozinho ou a irmãzinha, é recomendável que o homem envie flores à mulher amada (só na fase da conquista, claro), é pouco educado perpetrar um sonoro arroto durante as refeições etc. Isso parece óbvio demais? Então veja estas outras duas regras sociais: é gentil arrotar durante a refeição, pois significa que estamos gostando da comida; é gentil oferecer sua esposa para uma noite de sexo com os homens visitantes. Bem, essas já parecem mais exóticas para nós, pelo menos alguns de nós, mas a primeira vale para certas culturas de povos árabes, e a segunda vale para a cultura esquimó. Há outras regras de “boa educação” que caem em desuso, obviamente porque a sociedade e também as condições econômicas mudam. Pergunte a seu pai ou avô (se ele foi um homem “bem educado” da primeira metade do século XX) o que se devia fazer ao cruzar, na calçada, com uma pessoa mais velha. A resposta é: oferecer o lado de dentro da calçada, ficando você com o lado da rua. Pra quê? Não esqueça que a maioria das ruas era de terra, e o risco de enlamear o terno de casemira branca era bem maior para os que ficassem perto da rua nos dias de chuva. Com a urbanização e o desenvolvimento econômico, a regra caducou. Além disso, o status dos mais velhos era diferente do que existe hoje. Esses exemplos tomam apenas pequenos fragmentos da teia de normatizações oferecidas pela sociedade, mas são parte integrante de um determinado meio moral que compartilhamos.
Este meio moral, nos diz Durkheim, é produzido pela cooperação entre os indivíduos, através de um processo de interação que chamou de divisão do trabalho social. Dito de outro modo: conforme o tipo de divisão do trabalho social que predomina na vida coletiva numa determinada época, temos um tipo diferente de cooperação entre os indivíduos. E este tipo diferente de cooperação, por sua vez, dá origem a uma vida moral diferente. Vida moral que será a base dos conteúdos transmitidos na forma de crenças, valores e normas de geração para geração. E que cada nova geração, ao nascer, recebe pronta na forma de educação.
Não estou falando apenas de educação escolar, note bem. Estou falando de aprender a viver. Estou falando do modo como somos ensinados a ser membros da sociedade da qual fazemos parte. Coisa que, você já deve ter reparado, ninguém nasce sabendo. Aliás, alguns jamais aprendem.
Como já vimos, ao refletir sobre como, afinal, um simples conjunto de indivíduos pode constituir uma sociedade, Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e, portanto, não há vida social.
Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em sua vida em comum, existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. Numa tribo de índios, por exemplo, todas as pessoas fazem praticamente as mesmas tarefas: caçam, pescam, fazem cestos de vime, participam de rituais religiosos etc. A única divisão que geralmente existe — além da presença de indivíduos destacados, como o chefe ou o curandeiro — é a divisão sexual de tarefas entre homens e mulheres. O tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama de solidariedade mecânica. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas. Mas no caso radicalmente oposto, ou seja, na moderna sociedade industrial, as tarefas são extremamente divididas. Com a divisão do trabalho social, cada vez mais, os indivíduos desempenham funções diferentes umas das outras. Tal processo se radicalizou com o capitalismo, que levou a uma superespecialização das tarefas. Na fábrica moderna, há um homem para apertar o parafuso, outro para encaixar as peças, outro para pintar os encaixes etc. Além desses, que são todos operários, há outros tipos de profissionais superespecializados: o médico, o professor, o dentista, o carteiro, o ferreiro, o açougueiro, o contador etc.
Imagine o que diria o velho Durkheim se vivesse nos dias de hoje, rodeado por técnicos em informática, consultores de marketing, pilotos de corrida, analistas de sistemas, videomakers, astronautas... Talvez nem se espantasse. Talvez confirmasse com um sorrisinho nos lábios que tudo o que se fez desde o início do século XIX foi o incremento de uma diferenciação social cada vez maior.
O tipo de solidariedade que se estabelece entre os indivíduos com este elevado grau de divisão do trabalho não pode ser a mesma solidariedade dos índios na tribo. Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. É o que Durkheim chama de solidariedade orgânica. As pessoas não estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas, mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes e, portanto, para viver (inclusive para comer, beber e vestir) dependem das outras, que fazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de fazer. Como o alfaiate comeria e como o cozinheiro se vestiria se não fosse a existência do outro. Se uma tribo fosse devastada por um ataque inimigo e só restasse uma pessoa, ela poderia ainda sobreviver na mata caçando ou pescando ou comendo frutos das árvores, embora viver sem o grupo talvez não fizesse mais sentido para ela, tão ligada ao coletivo ela é. Mas o que você faria, caro leitor, se uma expedição de marcianos capturasse toda a população da terra para experiências e só esquecesse você por aqui? Como comeria? Claro, você pode assaltar o balcão frigorífico do supermercado. Mas quanto tempo a energia elétrica duraria sem a manutenção do pessoal da companhia de força e luz? Quem pagaria seu salário? Quem lavaria suas cuecas ou calcinhas? E pra que usar cuecas ou calcinhas se não há mais escritório para trabalhar ou aula para assistir, nem ninguém para ver você pelado ou pelada? Quem lhe ensinaria sociologia da educação na universidade? Quem passaria aquele filme romântico de sábado à noite?
Lamento informar, mas você depende dos outros. Sua relação com os outros todos que estão à sua volta, mesmo com aqueles que você odeia, sua relação com seu patrão ou com sua sogra, é uma relação de solidariedade. De solidariedade orgânica.
A diferenciação social, isto é, a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica, é similar à luta pela sobrevivência no reino animal. A divisão do trabalho, para Durkheim, é a solução pacífica da luta pela vida. Em vez de matar uns aos outros por causa da competição que seriam obrigados a empreender com seus semelhantes na luta pela sobrevivência, os seres humanos diferenciam-se. Nas sociedades humanas é possível a um número maior de pessoas sobreviver, diferenciando-se umas das outras, fazendo coisas que as outras não fazem para tornar- se parte da sociedade, e por conseguinte substituindo a solidariedade baseada na semelhança pela solidariedade baseada na diferença.
Mas há outro ponto importante. Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e, em decorrência, solidariedade mecânica, a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes, os indivíduos pensam “com a mesma cabeça”, por assim dizer. Quando, ao contrário, há muita divisão do trabalho e, em decorrência, solidariedade orgânica, cada pessoa, em diversas circunstâncias da vida, tem uma margem maior de liberdade, para pensar e agir por conta própria. Há, portanto, um enfraquecimento relativo da consciência coletiva nas sociedades complexas, há um enfraquecimento das reações da coletividade contra a quebra das regras estabelecidas e há uma margem maior para a interpretação pessoal ou grupal dessas regras.
Assim, os meios morais, nas sociedades com pouca e nas com muita divisão do trabalho, são bastante distintos. Os valores, as crenças e as normas compartilhados no seio de uma cultura pelos indivíduos são muito mais imperativos, obrigatórios e homogeneamente transmitidos de geração para geração numa sociedade pouco diferenciada, enquanto que, pelo contrário, sofrem interferências de grupo, de status e de classe numa sociedade muito diferenciada, como a sociedade industrial moderna. Quando todos são rigidamente ensinados a obedecer as mesmas normas, a compartilhar as mesmas crenças e os mesmos valores, a tendência, pensa Durkheim, é o consenso. Quando cada indivíduo, em função da divisão do trabalho e da especialização, assume valores, crenças e normas diferenciadas conforme o grupo ao qual se vincula na vida profissional, as regras gerais ficam relativizadas, ficam mais fracas. Pode-se dar interpretações diferentes a elas conforme o lugar de onde são vistas. E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. A tendência será, então, o conflito, decorrente da competição imposta pela diferenciação. Os indivíduos passam a guiar-se pela busca da satisfação de interesses que são cada vez mais pessoais e cada vez menos coletivos, na luta pela sobrevivência que aprendem na sociedade complexa em que nascem. É assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o individualismo.
É a divisão do trabalho e a diferenciação social que possibilitam o surgimento da liberdade moderna. Só numa sociedade complexa e diferenciada é que se torna possível diminuir a rigidez das regras sociais, sua validade geral e indistinta, e só assim o indivíduo pode ter certa liberdade de julgamento e de ação. Mas quanto mais liberdade individual, mais individualismo, entendido como a perda dos sentimentos gregários e de respeito às normas gerais da sociedade.

Educação para a vida

Chamo então sua atenção para a seguinte questão: quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade, mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da consciência coletiva, que era quase total nas sociedades pouco diferenciadas. Pois quanto mais o individualismo cresce, mais a consciência coletiva diminui. E no entanto, paradoxalmente, sem consciência coletiva, sem uma moral coletiva, a sociedade não pode sobreviver. A solidariedade é o cimento que dá liga à sociedade. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle, a solidariedade orgânica (baseada na diferença) provocaria a desintegração da sociedade, provocaria o que Durkheim chamou de anomia, isto é, a ausência de regras, o caos. Se isso não ocorre por completo é porque a conciência coletiva ainda se mantém de alguma forma.
Num meio moral em que o individualismo possibilitado pela diferenciação social compete com a consciência coletiva própria a toda vida social, a educação assume o significado de educação moraI. Assume a condição de pedra fundamental de preservação da coesão social.
Assim, a educação, para Émile Durkheim, é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Educação é socialização.
“É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos”, sentencia Durkheim no seu livro Educação e sociologia. Existem certos costumes, certas regras, que devem ser obrigatoriamente transmitidos no processo educacional, gostemos deles ou não. Se não fizermos isso, a sociedade se vingará de nossos filhos, pois não estarão em condições de viver em meio aos outros quando adultos. A cada momento histórico, acredita Durkheim, existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. Ideias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente de seu tempo, diz nosso sociólogo, não são boas porque não permitem que o indivíduo educado tenha uma vida normal, harmônica com seus contemporâneos.
Mas se, como dissemos antes, as sociedades modernas são muito diferenciadas, devido à divisão do trabalho social, como seria possível um único tipo adequado de educação para todos? Ora, não seria possível. Para Durkheim, a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais, conforme a divisão em classes, em castas, em grupos, em profissões etc. Assim, não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. Você aprende a ser um membro de sua classe, de seu grupo, de sua casta, de sua profissão, enfim, de seu meio moral. E este é o modo específico, particular, pelo qual você se torna membro da sociedade. Esta não é algo que esteja disponível em sua abrangência total para todas as pessoas. Socializar-se é aprender a ser membro da sociedade, e aprender a ser membro da sociedade é aprender o seu devido lugar nela. Só assim é possível preservar a sociedade. Preservá-la inclusive de sua própria diferenciação.
Aprender a ser um engenheiro, para Durkheim, não é simplesmente aprender a fazer plantas ou calcular volumes de concreto. Assim como aprender a ser médico não se limita a aprender a cortar barrigas ou serrar ossos. Aprender a ser médico ou engenheiro significa aprender a agir na vida como médico ou engenheiro, a relacionar-se com os outros a partir desta ou daquela profissão. Significa aprender a agir como a sociedade espera que um médico ou um engenheiro ajam. Significa entrar num meio moral, através da aquisição de uma moral profissional. Por isso, os sistemas educacionais contemporâneos não são homogêneos. Educação homogênea, aliás, só se voltássemos à pré-história, em sociedades sem diferenciação.
No entanto, por mais específicos que sejam os meios morais para os quais somos educados, sempre existirão crenças e valores básicos que devem ser comuns a todos. A educação do engenheiro pode ser muito diferente da do médico, ou do literato, mas antes de serem educados para essas atividades profissionais, passaram por uma educação fundamental, no geral compartilhada com todos. Mesmo numa sociedade rigidamente dividida em castas, como na Índia, onde as pessoas nascem e morrem, geração após geração, sem chance de passar de uma casta para outra, existem alguns valores comuns a todos; por exemplo, uma religião comum. Assim, mesmo que nem todos nós fumemos um determinado cigarro, “alguma coisa a gente tem que ter em comum”. Não seria possível existir sociedade sem isso. E fundamental que haja certa homogeneidade, e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma da criança que é educada, insistiu o sociólogo francês. Assim como é fundamental para ele que, a partir de certo ponto, a educação se diferencie, para adequar as crianças a seus meios específicos de vida.
Para resumir esta ideia, permita-me citar a definição que o próprio Durkheim dá para educação:
A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio moral a que a criança, particularmente, se destine (Educação e sociologia, cap. 1).

É isso que nos permite viver em sociedade, é isso que permite que a sociedade viva em nós e é isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Só a educação pela qual passamos é capaz de nos fazer assim. E é por isso que a educação é um processo social.


Texto indicado pela Professora Sueli
Referência:
RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. p.19-34.

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